sábado, 23 de outubro de 2021

 na sala fria

angústias 

escorrendo 

  nas 

  palavras 

  pelo 

  papel

desabafar solitário

choro imprevisível e

uma vontade de não ser

(abril 2011)

 usaram a tristeza 

como arma de guerra 

pra você não se lembrar

de quando era feliz


nas infinitas pandemias

da pós modernidade

de amores líquidos 

panópticos de si mesmo


diga-me 

quantos de você 

ainda restam?


Abril 2021

 me pediram para 

falar do tempo

que não envelhece 

mais sem querer

que não sei 

mais enganar 


o tempo está 

perdido

vazio

opaco

no ano que 

não acaba 


repleto 

preenchido

das mesmas coisas

das mesmas aflições 

das inúmeras saudades 


já parou para pensar 

quem você era?

consegue me 

dizer quem é?


Abril 2021

Deixe-me aqui, na fantasia

E se o Carnaval fosse o "novo normal"? Abriríamos o armário para escolher a fantasia e após o batom azul, a purpurina nas bochechas e os cabelos coloridos sairíamos para trabalhar. No caminho brincaríamos com as crianças pelas calçadas, conversaríamos com estranhos como se fôssemos amigos de infância, sorrisos não iriam faltar. Não teríamos vergonha do nosso jeito desajeitado de dançar e até cantaríamos como num recital. No trabalho seríamos recebidos pelo arlequim, daríamos aulas para fadas, unicórnios, heróis e palhaços. Nossos maiores sonhos seriam eternizados e, feito criança, riríamos até doer a barriga. Se é para ter uma nova realidade me permita ficar aqui, na fantasia.


#fotocarnaval2020 

#desabafocarnaval2021

 numa história maior que nós 

o que merece ser memorável? 

memórias são escolhas 

mesmo imemoráveis 

não deixarão de existir

é fato histórico


me leve para outro mundo,

atemporal, fluído, líquido 

onde eu possa pular uma década,

documentando apenas 

as lembranças mais desejadas.


Janeiro 2021

 a que vai


mesmo indo

parte de mim 

resolveu ficar


talvez aquela

que chegou


escondida 

nos cantos

às espreitas

no espelho

quebrado


a desconheço 

me desapego

me despeço 

a deixo com as dores

deste apertamento.


#vemmudança 

Agosto / 2021

sábado, 6 de fevereiro de 2021

 









underground


existem aqueles

que procuram a escuridão

querem não enxergar

só por um instante

como se ali, no breu,

tudo fosse permitido


os medos fossem engolidos

na música estridente

e melancólica

as rugas sumissem

em detrimento da beleza

alcoólica


parecem fantasiados

num Carnaval às avessas

onde a folia bate cabeças

e chora nostalgias


(abril 2017)



 







2020

 

os furos

da orelha fecham

os sapatos

gastam sozinhos,

dentro do armário

os pelos

crescem sem julgamentos

e os espelhos

se sentem sozinhos

 

guardados de mundo

fingimos nos reinventar

descobrimos

o que nunca fomos

sem saber o que será de nós



 


 


 






marielle

 

tentaram te calar

levando seu corpo

 

grito na tempestade

raios, trovões

lua vermelha

 

ignorantes de sua força

já não podem acreditar

sementes crescem

sem sair do lugar



oração

 

quando a gente reza

a alma se acalma

e uma certa leveza

toma conta do  nosso corpo

 

quanto se reza em quatro décadas?

quão calma pode ser a alma

ou leve pode ser o corpo?

 

não importam os deuses

nem o tamanho da prece

 

a melhor oração

me levou à profundidade

de mim

e foi capaz de me trazer

à superfície num suspiro.

 

Cecilia Guimarães, 40 vezes poeta. 

 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

edifício

 

quando uma parte 

de mim se for

já não serei esta que sou

não saberei o que restou

nem me recompor

 

o pior cárcere 

você mesmo cria

tem porta aberta

sem chave,

sem tranca,

panóptico de si mesmo

 

há demoramento 

nessa frágil ideia 

de carregar mundo

 

falta tempo

 

obra que não termina

não há restauração

não há sequer cal

para pintura barata

 

as vigas do meu edifício 

estão corrompidas

não sustentam mais

minha própria morada


 vacina: no dia D, na hora H

2020





2020.

 

 pandemia - janeiro 2021